A morte é um projeto coletivo

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

um dia destes tenho o dia inteiro para morrer,
espero que me não doa,
um dia destes em todas as partes do corpo,
onde por enquanto ninguém sabe de que maneira,
um dia inteiro para morrer completamente,
quando a fruta com seus muitos vagares amadura,
o dom – que é um toque fundo na ferida da inteligência:
oh será que um poema entre todos pode ser absoluto?
: escrevê-lo, e ele ser a nossa morte na perfeição de poucas linhas


                               Herberto Helder. Servidões



Tenho nas mãos um retrato da morte, anônimo e anônima, neutros: impossível dar-lhe um rosto, uma forma, uma memória?  O retrato segue contido na mão, segurando-se nela, na parte viva e muscular por onde escoa o tempo em que balbuciar qualquer canção que se faça rio, seguimento, sequência, coisas que arfam.

 A vida é feita assim de pequenas solidões. Pense a solidão, súbita, de um retrato, uma fotografia, aquele pasmo de tempo impresso em papel, pintado, químico, folha de ataraxia, imagem descolada de um corpo que avança, impreterivelmente, para a própria morte. A fotografia de um rosto será mais movente e invisível que um rosto no espelho? Testemunha que outra forma que se decalca de nós? Leva o que acaba de ser instantâneo para o registro do remoto? Não estamos, estando, estivemos. Tempo. Outra coisa, a mesma. E alguém se pergunta: O que nos abre ao fascínio da imagem, da imagem específica de um rosto, um retrato?
                                                                  
Desde que somos egípcios sentimos falta de um objeto outro, exterior, que nos represente, que nos informe sobre como seríamos na exterioridade de nós mesmos. Então moldamos o barro alheio, inventamos um mundo, nomeamos o que sonhamos nosso. Em nós: o vivo agora infatigável. E dizendo, damos formas ao vivo, encontrando a meada da semente: como dizer, dar formas àquilo que constitui o vivo? Como modelar a morte?

No sarcófago, nos túmulos de mármore em que selamos à pedra o volume de nosso corpo inerte, símile da própria pedra, talvez algo se afine, um paralelismo se dê. Mas nunca o impacto do congelamento de nossa imagem foi tão certeiro como na fotografia. A fotografia não representa, não imita: a fotografia rouba, captura, toma. É por isso que usamos a expressão ‘tirar uma foto’, em diversas línguas. Tiramos de nós uma pele, na fotografia; ela nos rouba um instante que talvez jamais tenha sido, rasgando nossa imagem, nossa identidade, nossa percepção do tempo. A fotografia é uma arte elegíaca, talvez a mais densa das elegias.                

Será por isso que vamos para a morte com ela, com nosso retrato? Qual o élan da morte que faz durar o retrato? Repare, nos cemitérios, como, às vezes, as pedras em que constam os nomes vão se fundindo num limo e numa gastura, rasurando o nome, apagando-o; mas o retrato oval, guardado num suporte de cerâmica ou envidraçado, não. O retrato quer durar, ou por alguma química oculta, se faz presente por mais tempo neste lugar, neste território, enfeitando a ausência coletiva de vida do jardim dos mortos.

NotUrna é uma urna que não se fecha, uma urna-barca aberta, testemunha da quantidade de sobras, restos e fragmentos que compõem o encontro entre retrato e morte, tão involuntários quanto irrevogáveis. O livro se desmonta em perguntas sobre perguntas: O que nos leva a guardar registros de nossa futura morte? Ou seja, por que nos fotografamos com tanta insistência? Como nos guardamos/colecionamos no nosso futuro que é ausência? Como e em que nos fazemos durar? Queremos que os outros nos guardem de nossa própria e alheia extinção? O retrato como testemunha mais fidedigna de ter havido um rosto? Qual o pacto que tecemos com o tempo (e a morte) através da fotografia? A fotografia nos garante um passado de existentes, nos devolve à biografia? Quando olho o meu retrato, que fenda se abre? Serei o que fui? Sou quem? Quem foi em mim? Fui quem serei? Que pensamento e sentimento são capazes de perdurar no suporte do retrato? Resgato, pela imagem, o que sentia, na ocasião de sua captura? Qual o efeito de um rosto na fotografia? Fotografo a mim mesmo ou deixo-me fotografar, como uma maneira velada (e silenciosa) de participar de minha própria morte? Ou busco na fotografia uma tentativa desesperada de não lidar com ela?

Esqueço-me, a fotografia é uma imagem, imagens são suportes de todo sonho, de qualquer desejo. A imagem não é vínculo inexpugnável com o retratado, com a biografia histórica em linha reta. A imagem é uma palavra: mãe, por exemplo; destino, por exemplo; voz, ainda. Tudo cabe na imagem e por mais fixo que se pretenda um retrato, nada mais amplo e esvaziado, terreno baldio de qualquer momentânea possessão.

Quando partimos, quem é que somos? Quem é que podemos ser? Quantas narrativas se somarão sobrepostas à nossa imagem? Ou ainda, aquela imagem que dizia de nós, diz de quem, agora? Esta reversibilidade da imagem, de congelamento/reinvenção é o que nos impulsiona, neste trabalho, como possíveis indagações ao tema trabalhado: o momento em que a imagem de um rosto deixa de ser um retrato pessoal e passa a ser um rosto qualquer, uma máscara coletiva, um quem-qualquer, sem verdade e biografia concentrada, mas, pelo contrário, oferecendo-se como um dispositor de narrativas variadas, inúmeras, uma fábrica de imagens, um estímulo criador, um motor de vida. Um ilusionismo, como uma faca, com seus dois lados. Mutila e Multiplica. 

Este trabalho não poderia ser feito por um, por dois. Resulta de uma gama coletiva de experimentos, encontros, noites desassossegadoras, em que, ao lado de amigos, ou com amigos pelo correio, nos sentamos frente ao retrato em toda sua extensão: dos selfies mais velozes ao único retrato final, lapidar, escolhido por alguém, quem? qual a linha que une e separa a fotografia incessante do nosso fetiche pela própria imagem e autoimagem, do tabu fotográfico que devotamos, mesmo sem perceber, ao retrato posto no túmulo? Não são, afinal, a mesma imagem?

Muitos foram os depoimentos e, sobretudo, o que este Livro contém, não contendo ao todo, é um mergulho em experiências silenciosas e trocadas, debatidas e guardadas, sobre a relação entre fotografia, escrita e morte. Agradecemos a todos que vieram conosco e todos os que ainda virão, no desdobrar do NotUrna enquanto livro a ser lido, reinventado. Que esta urna navegue viva por todos os rostos presentes, todas as formas sensíveis do vivo, compondo o coro noturno e abissal deste arcaico projeto coletivo que é morrer.


quarta-feira, 6 de novembro de 2013

a morte nas bibliotecas

Ele estava lá, nas manchas que estavam na parte inferior da jaqueta, ele estava lá, no cheiro das axilas. Acima de tudo, ele estava lá, no cheiro. Foi assim que comecei a pensar sobre roupas. Eu lia sobre roupas e falava aos amigos sobre roupas. Comecei a acreditar que a mágica da roupa no fato de que ela nos recebe, recebe o nosso cheiro, nosso suor, até mesmo nossa forma. E quando nosso pais, nossos amigos e nossos amantes morrem, as roupas ainda ficam lá, penduradas em seus armários, sustentando seus gestos, ao mesmo tempo confortadores e aterrados, tocando os vivos com os mortos

Stallybrass, Peter,  “O casaco de Marx”

encontrado em "jardim regado com lágrimas de saudade - morte e cultura visual na venerável ordem terceira dos mínimos de são francisco de paula" livro de henrique sérgio de araújo batista, livro histórico, com passagens interessantes, não podia fotografar no Museu histório municipal, tinha poucas imagens.

em outro capítulo, entitulado "O jardim, a pedra, a perda e o poema" o autor cita um livro de 1842 de Luiz vicente de simoni cujo título é:

GEMIDOS POÉTICOS 
SOBRE TÚMULOS 
OU 
CARMES EPISTOLARES DE 
HUGO FOSCOLO, HYPOLITO PINDEMONTE E JOÃO TORTI, 
SOBRE OS SEPULCROS
 TRADUZIDOS DO ITALIANO 
PELO DR. LUIZ VICENTE DE SIMONI, 
COM OUTROS DO MESMO TRADUTOR 
SOBRE A RELIGIÃO DOS TÚMULOS E 
SOBRE OS TÚMULOS DO RIO DE JANEIRO

bizzarro pela extensão...

e no fim só percebi depois que eu tinha encontrado um trecho deste livro em outra biblioteca, nos volumes deste livro:


dois volumes de uma extensa pesquisa, com imagens interessantes:



eu não conhecia este termo "câmara-ardente"















achei também este outro livro menorzinho, com informações mais de arquitetura e antropologia dos cemitérios:



e tinha também um desses bem burocráticos:








encontrei também uma citação sobre uma revista portuguesa de 1868 chamada "revista dos monumentos sepulchraes", mas não achei namda na internet sobre o conteúdo. só vi que está disponível na biblioteca Nacional de Portugal.




outro livro mais técnico é um italiano chamado "arquitetura funerária moderna", que começa falando das tumbas e pirâmides do egito, depois da grécia, roma e cemitérios contemporâneos da Itália, mostrando projetos de arquitetura.
mas este livro tbm estava na biblioteca onde não era permitido fotografar.



pesquisei tbm nas bibliotecas da usp, pelos sites das bibliotecas, mas nenhuma pesquisa passa perto da que estamos fazendo, o que me parece interessante


algumas notas # 1 _ roberta

laminar luminar


- rosto no retrato = relação de um cerco (enquadramento) com uma abertura (olho) | uma órbita e uma gaiola | o olhar é o rosto inteiro
“algo gira ao redor do olhar: não basta que o retrato se organize ao redor de uma figura, esta também tem que se organizar ao redor de um olhar, ao redor de sua visão ou de sua vidência. O que vê o retrato? O que deve olhar? Aqui está, sem dúvida alguma, a entranha da questão”.

- o retrato, representação do rosto, captura _ põe em jogo toda a filosofia do sujeito, segundo Nancy | põe a nu a estrutura do sujeito? desvelamento do eu (um olhando o outro para desenhá-lo, dizê-lo)
- produzir a exposição do sujeito, mais que representar: e como fazer isto para a morte?
- “tirar uma foto”: sacar para fora, conduzir adiante, extrair da morte? salvar?
- dar um retrato aos mortos (à morte) para que eles (ela) nos veja a partir de lá? que continue a nos ver, e assim, por reflexo (cruzamento de ohares, nossos e dos mortos/da morte) nós continuemos a nos ver? Arte e representação como duração e duração instintiva (o impulso criativo como compensação da consciência da morte) e o retrato como uma espécie de garantia simbólica do nosso próprio rosto/nossa existência. algo que nos concretize o impalpável da imagem de nunca estarmos a nos ver, mas de nos provarmos vivos por sermos vistos, porque outros nos veem, até depois da morte;
- quando um rosto revela a nudez do corpo?
- retratar (pensar no verbo no sentido de ‘desculpar-se’): desculpar-se de que ofensa? Com quem nos desculpamos? O retrato é um retratar-se?
- tabu e captura: o retrato talvez abra um segredo
- dos nossos objetos cotidianos, a fotografia é o único a habitar também o espaço da morte (o cemitério, o santuário); há toda uma fronteira de objetos que pertencem à morte e fazem parte dela: o retrato, a flor, a vela (com um impacto mais dissolvido). Dentre todos, a fotografia é i que mais cabe neste espaço de ‘fronteira’, entre vida-e-morte.
- como o retrato na morte (no contexto dela) afeta os nossos demais retratos, os que estão ‘fora’ dela? ao retrato se transfere uma força simbólica que faz dele nosso semelhante, nosso duplo ‘concreto’, que nos adverte sobre nós mesmos e (talvez) nos salve de nós mesmos? Daí o seu fascínio?
- Derrida em “Fornecer o subjetivo”: fala numa identidade que desidentifica sujeito e suporte; fotografia como rasura;
- fotografias são ambíguas, são formas de entrar em contato com a ambiguidade;  negativo e positivo; figura-e-fundo; velado e revelado; profundidade e superfície;
- Hegel: a pintura é ponto de equilíbrio entre exterioridade e interioridade;

- moeda nos olhos | moeda de Caronte: pagar a travessia fúnebre | os corvos da barca | nigredo